Reportagens: Mercedes-Benz

Fonte:
Revista Mercedes-Benz - Número 136
A ressonância do berrante - página 34

A ressonância do berrante

ArtChifre

      Berrante tem som grave ou agudo, sempre bem forte e marcante. Com um pouco de esforço e boa vontade, poderia até vir a ser um instrumento musical. Talvez nem precise ser adaptado para entrar numa orquestra e dar um colorido mais autenticamente brasileiro nas nossas músicas. Esse dia ainda não chegou, mas o berrante certamente aguarda a hora de ascender na escala e figurar quem sabe numa sinfônica, mostrando o valor que tem como instrumento de sopro. Hoje ele freqüenta quase somente os ambientes de churrascarias, rodeios, exposições agropecuárias, armazéns de produtos agrícolas ou farmácias veterinárias do interior, sempre com a finalidade decorativa. Às vezes enfeita varandas e salas de habitações rurais ou escritórios de fazendas, mais uma vez como objeto de decoração ou de recordação de um tempo que já ficou para trás.
      Berrante é apenas uma buzina, coisa muito simples, instrumento caboclo feito com chifre de bovinos. Simples, mas é impossível o boiadeiro conduzir uma grande manada sem que ele esteja presente. O som do berrante é o guia pelo qual se orientam as rezes. Com os toques, o peão não só dirige os passos e o ritmo do rebanho, como também emite avisos para os colegas da outra ponta. Serve, ainda, para se comunicarem entre si. Berrante deriva do berro, a voz do boi, som que o instrumento procura imitar e com o qual o gado se identifica. Foi criado aqui mesmo no Brasil e tem um sotaque misto de mineiro do Triângulo, goiano e mato-grossense. Há quem desconfie que ele tenha parentesco com um instrumento parecido, usado antigamente pelos árabes, e com outro, também parecido, que era encontrado entre os camponeses em Portugal.

ArtChifre

Após o corte, a ponta do chifre serve para confecção de outros artefatos.

Volta do berrante

      Está cada vez mais difícil encontrar grandes boiadas pelos caminhos. A partir da década de 1960, surgem estradas pavimentadas, em cujas pistas não é tolerado o tráfego de animais. Os bois viajam por elas, mas nos caminhões próprios, em comboios, que percorrem as mesmas distâncias, em um ou dois dias, impulsionados por motores possantes e estridentes buzinas, cujo som só de longe lembra um berrante. O berrante ficou quase esquecido. Antes que silenciasse de vez, as festas do peão do boiadeiro começaram a entrar na moda em grande parte do Brasil e isso fez ressuscitar as raízes ruraris ainda remanescentes na memória de cada brasileiro. Renasceu a cultura sertaneja. E o berrante voltou a ser tocado, agora por gente conhecida, do meio artístico, que o faz soar até em novelas de televisão, como Pantanal e Rei do Gado, de grande audiência.
      Nunca foi lembrado como instrumento musical. Só que quem o toca não o adquire sem antes fazer uma demorada escolha, levando em conta a qualidade do som que produz. Também conta ponto a leveza e o capricho com que o berrante foi manufaturado. Isso porque na maioria das vezes o interessado é um profissional e nessa condição espera do berrante desempenho impecável. Por outro lado, o berrante passou a ser presença obrigatória em eventos como shows em eventos como rodeios e freqüentemente em apresentações de shows em televisão. Confeccionar berrantes, conseqüentemente, tornou-se também um ofício que requer, ao mesmo tempo, vocação, prática e experiência – atributos que poucas vezes são encontrados numa só profissão.

Habilidade em extinção

      Hoje, calcula-se que no Brasil inteiro o número de pessoas capacitadas a manufaturar berrantes a partir do chifre não passa de dez.
      Um deles, Marciel Malaquias, vive na agitada capital de São Paulo, bairro do Itaim Paulista. Ele trabalha numa pequena oficina, circulando entre serras, esmeris, politrizes e centenas de chifres, com os quais fabrica, além de berrantes, pequenas peças utilitárias e ornamentais, que são avidamente compradas por turistas estrangeiros em lojas de souvenires.
      Marciel Malaquias representa a terceira geração de uma família que há oitenta anos não faz outra coisa.
      A história, contada por ele mesmo, começa com o pioneiro José Malaquias da Silva, baiano de Mamonas do Ouro, na década de 1920. José, que era avô de Marciel, começou a lidar com chifres quando morava em Marília, interior de São Paulo. Por não estar de bem com a vida, uma noite, após rogar aos céus que lhe iluminasse o caminho, sonhou com uma montanha de chifres. O sonho foi tão marcante, que já na manhã seguinte saiu sem destino à procura do objeto do sonho. Encontrou-o, logicamente, no matadouro da cidade. Recolheu os chifres e, mesmo sem saber que destino dar a eles, levou-os para casa. Dias depois surgia a primeira obra: uma estatueta de pássaro, feita de chifre. A partir daí, novas e bonitas peças surgiam a cada dia e todas eram vendidas rapidamente. Empolgado, José passou a fazer outros ornamentos e o artesanato virou ocupação dele e dos filhos em tempo integral. O herdeiro Efraim, que é pai de Marciel – hoje aposentado -, deu continuidade aos trabalhos. Agora quem comanda os negócios é Marciel, que já ensinou a arte ao filho Rafael Schneider Malaquias.
      Rafael está com dezesseis anos e além de demonstrar interesse e habilidade na fabricação de berrantes, também freqüenta escola de música. Quem sabe esteja nele a esperança de o berrante vir a se tornar um instrumento musical.

Preservando as raízes

      O que significa, afinal, fabricar berrantes numa metrópole como São Paulo nestes anos 2002 ? O próprio Marciel ersponde, dando à voz um tom misto de confissão e nostalgia. “O berrante é usado no Brasil inteiro.” Ele gosta de falar no tempo presente, pois seu trabalho nunca foi interrompido e agora está ainda mais empenhado em abastecer o mercado com seus produtos. “Em algumas partes há diferença de toques para transmitir avisos como presença de mata-burro, desgarramento de alguma rês, parada para descanso, hora da comida, assim por diante. Isso na época em que enormes boiadas eram conduzidas pelas estradas”, prossegue.”Estou falando de um tempo em que tudo era bonito, muito simples e a profissão de boiadeiro era respeitada. Viajar com uma comitiva transportando gado causava inveja”, recorda. Pegar um rebanho num pasto e levar para outro dono a quilômetros dali, muitas vezes representava semanas de viagem e travessia de algumas cidades. Era a vida que os boiadeiros levavam. Marciel recorda que os peões se vestiam com elegância, montavam cavalos saudáveis, que tomavam banhos diários e tinham os pêlos e a crina bem escovados. Nas cidades aonde chegavam despertavam admiração. Ao deixá-las, os toques de berrantes marcavam a despedida e uma espécie de agradecimento pela acolhida. Para a comitiva, era o início de um novo trecho a ser vencido. “São imagens que nunca se apagam da minha memória e de tantos outros brasileiros que viveram a experiência. Muitas dessas pessoas nos fazem visita, ouvem e contam histórias dessa época, que não está tão distante, e recordam com nostalgia o toque de berrantes. Essas lembranças quero conservar para sempre e é isso que me prende aos berrantes”, confessa.

Dois nomes fazem a marca

      Outro que tem igual vocação para fabricar berrantes é Jairo Domingos Agrizzi. Agrizzi mora na pequena cidade de Bernardino de Campo, a pouco mais de trezentos quilômetros de São Paulo e também fabrica berrantes de rara beleza e qualidade. Em localidades diferentes, Malaquias e Agrizzi produzem os mesmos objetos e vivem exclusivamente do ofício. Contudo, não são concorrentes, nem tampouco sócios. Num dado momento, os dois simplesmente juntaram as forças e, mesmo cada um produzindo do seu jeito nas respectivas cidades, um ajuda o outro, numa autêntica parceria à distância e sem contrato. O resultado tem sido promissor. Juntos, conquistaram a preferência de artistas de renome, como Sérgio Reis e a dupla Goiano e Paranaense, que são usuários dos berrantes com a grife BJS, considerados os melhores do Brasil e que são fabricados por Agrizzi e distribuídos por Malaquias em São Paulo, na sua empresa conhecida como ArtChifre. Sula Miranda e Lúcia Veríssimo também os possuem e os tratam com relíquias.
“Não consigo tocar nada”, confessa Agrizzi abertamente. Malaquias diz a mesma coisa, mas num descuido se deixa surpreender tirando alguns acordes bem afinados, sem nenhum esforço. Quando dizem não tocar nada, evidentemente eles estão se comparando a profissionais como Zé Capeta, Marcinho Berranteiro e outros grandes tocadores que dominam os cerca de 150 toques existentes e ainda por cima são capazes de executar músicas populares.

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