Reportagens: Revista Kalunga

Fonte:
Revista Kalunga
Publicação Mensal - Ano XXVVIII - Numero 115 - Agosto 00
Chifre também é arte - página 119

ArtChifre

      "Algumas atividades sobrevivem no tempo, ignorando ciclos econômicos, crises financeiras, pacotes de governo e, na virada do milênio, até a globalização. É o caso do artesanato, aqui exemplificado pela família Malaquias, que há mais de 50 anos transforma chifres em coisas bonitas de ter e de se ver"
Texto: Ivaris Silva Nas

      "Tem gente que passa a vida inteira procurando chifre na cabeça de cavalo; enquanto outros, com mais sorte e tino comercial, procuram no lugar certo e se dão bem. Caso da família Malaquias, que sobrevive há quatro gerações da manufatura de chifres bovinos, produzindo bengalas, estatuetas, calçadores de sapatos, cinzeiros e berrantes. O pioneiro da Art Chifre, instalada atualmente no bairro paulistano do Itaim Paulista, foi o avô, José Malaquias da Silva, já falecido, cujo herdeiro foi o filho, Efrain, agora aposentado. No comando agora está Marciel Malaquias (neto), que já iniciou na arte o filho adolescente, Rafael Schneider, de 15 anos.

      A oficina rústica, ao lado da residência da família, com pouco mais de 100m², em dois ambientes, está bem equipada e tem até um bom estoque de matéria-prima – centenas de quilos de chifres. Aliás, segundo Marciel, o segredo do negócio dos Malaquias começa exatamente aí, “na escolha dos chifres a serem utilizados em cada objeto”.
      O artesão conta que nos tempos do avô José, os responsáveis pelos matadouros / frigoríficos até ficavam “agradecidos por quem desse um fim naquelas montanhas imensas” do material que se acumulavam pelas instalações. As coisas mudaram e, hoje em dia, algumas poucas empresas dominam esse mercado no Brasil; obrigando a Art Chifre a pagar até R$ 1,50 por aspa de boi que entra na oficina.
       Depois de passarem pelo esmeril, politriz, cortes, banhos em produtos químicos diversos e montagens, as peças tomam sua forma final e vão para os estandes em feiras de artesanatos, exposições agropecuárias e rodeios, além de lojas especializadas e hotéis. Um berrante, por exemplo, custa R$ 40,00 na Art Chifre, porém, paga-se bem mais caro por ele no revendedor final. Vale observar que três artesãos conseguem montar até cinco berrantes por dia de trabalho.

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      O preço das peças, segundo Marciel, varia de acordo com a dificuldade de produção, o tempo de ofício e o material empregado. Quanto ao faturamento da empresa, ele é categórico: “Ninguém ficou rico na família, mas todos tiraram bom sustento e estudo para os filhos”. Ele próprio, por exemplo, que esteve ao lado do pai, Efrain, desde os 14 anos, é contador formado, tendo sido antes também proprietário de uma confecção.
      Mas foi o artesanato com os chifres que manteve a família e até a socorreu nas dificuldades enfrentadas nos outros empreendimentos. Por isso, Marciel decidiu apostar todas as fichas no ofício, profissionalizando e dando-lhe uma infra-estrutura industrial. “Até aqui, tem valido a pena”, confirma ele, que já introduziu o filho no negócio sem, contudo, interferir em suas iniciativas. Rafael é estudante de música, mas, segundo o pai, “vai sempre ter onde se segurar”.

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      A Art Chifre também vem ampliando seu leque de produtos, que vão muito além dos chifres. São os casos da “cabeça de boi”, um porta-chapéu de parede, e do “bezerro barril”, um tonelzinho para aguardente. Estes são trabalhos bem mais caros, que passam por processos sofisticados, como a taxidermia, e demoram semanas para serem concluídos. Por isso, são feitos apenas sob encomenda."

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Uma montanha de chifres

      A família Malaquias começou no artesanato com José, no final da década de 50. O pioneiro, baiano de Mamonas do Ouro, morava em Marília, interior de São Paulo. Na época, andava deprimido, inclusive com problemas de alcoolismo. Temente a Deus, uma noite, após ter pedido uma luz divina para mudar de vida, sonhou com uma montanha de chifres.
      Na manhã seguinte, começou a procurá-la, embora não fizesse a menor idéia de onde encontrá-la. Foi então que pensou no matadouro da cidade, Lá, conseguiu duas sacolas cheias de chifres, mas, em casa, não sabia o que fazer com eles. Pegou um nas mãos e ficou horas olhando para ele. Dias depois, surgia a primeira estatueta: um pássaro.
      A manipulação das aspas era bastante difícil, a princípio, com grosa, lima, cacos de vidros para cortar e pó de cerâmica para polir. Mas as peças ficavam bonitas e chamavam a atenção. Vendiam tão bem que logo José deslanchou no negócio. Esqueceu da bebida e ensinou os filhos e os genros a trabalhar. Chegou a ganhar o que recebia um médico da época.
      O auge do negócio foi na época dos cassinos, então, seus maiores clientes. Com os anos e a ascensão de Efrain, pai de Marciel, a tecnologia foi ganhando espaço na confecção dos chifres. Desta época, datam os primeiros esmeris de mancal, politrizes manuais e dos abrasivos.
      Com o tempo, também, outras atividades foram seduzindo os integrantes da família, o que, em alguns momentos, quase colocaram fim à tradição. No final da década de 70, já na capital paulista, somente os irmãos Efrain e Genito (também aposentado) mantinham-se no negócio. Mas tudo começou a mudar, quando Marciel, então um garoto, deu seus primeiros passos rumo à montanha de chifres dos sonhos do avô. "

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