Reportagens: O Estado de São Paulo

Fonte:
O Estado de São Paulo
Quarta Feira, 8 de março de 2000 - Número 2313
Jornal Suplemento Agrícola – pg. G3

ArtChifre

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Artefatos produzidos a partir do chifre de boi na oficina de Marciel Malaquias, na oficina Art`Chifre: sabedoria que passa de pai pra filho

Poucos conhecem a arte de fabricar berrantes

      “São apenas dez no País os que guardam o segredo de transformar o chifre de boi em instrumento” JOTABÊ MEDEIROS

      Destes homens, pode-se dizer que enxergam chifre até na cabeça de cavalo. Porque é do chifre que depende sua profissão e eles estão sempre à caça de bons cornos em abatedouros e pastos. E olha que nem têm tanta concorrência: existem apenas dez profissionais como eles em todo o País.
      Jairo Domingos Agrizzi fabrica berrantes raros e artesanais em Bernadino de Campos, cidadezinha do interior de São Paulo, lá pelos lados de Ourinhos. Marciel Malaquias faz berrantes, em escala industrial, no Itaim Paulista, na Zona Leste de São Paulo. Ambos representam famílias de berranteiros, que produzem este que é o mais genuíno instrumento de comunicação do boiadeiro brasileiro.
      Agrizzi mora quase no fim de uma avenida típica de uma cidade também típica do interior. Ex-mecânico de refrigeração, ele lembra que, há 20 anos, foi com o pai visitar o irmão em Alto Garça, em Mato Grosso. Os três saíram para pescar e caçar. “Coincidiu que tinham matado dez bois carreros e deixaram os chifres lá no alto da serra”, conta Agrizzi. Ele pôs os chifres em um saco e, apesar da relutância do pai, arrastou-os para tentar fazer um berrante para o avô. Nunca mais parou.
      “Ele faz o melhor berrante do País”, diz aquele que deveria ser seu concorrente, o gaúcho Marciel Malaquias, que fabrica com o pai Efraim Malaquias, o irmão e mais um funcionário cerca de 300 berrantes por mês. Malaquias e Agrizzi não só não concorrem pelos clientes, como o primeiro inclui até os berrantes artesanais de Agrizzi entre os que comercializa – é uma espécie de agente do colega.
      O berrante BJS, fabricado por Agrizzi, é o chamado “berrante de grife”. É um deles que Sérgio Reis segura na capa do CD Marcando Estrada, de 1995. A dupla Goiano e Paranaense tem o seu. Lúcia Veríssimo também. Sula Miranda já fez força com um deles na boca. Quem sabe tocar os cerca de 150 toques que o berrante é capaz de soar conhece bem o berrante BJS, como Zé Capeta, Marcinho Berranteiro e outros tocadores.

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Efraim Malaquias faz acabamento na peça:"Não sei tocar"

      Tradição – “Eu sou fabricante, mas não gosto de tocar”, diz Agrizzi. “Não toco nada”, reconhece Malaquias, que aprendeu a fazer berrantes com o pai – que, por sua vez, também aprendeu com seu pai. A fórmula da arte de fazer berrantes parece incluir uma pitada de intuição. “Os primeiros que eu fiz não tocavam, não saía som”, conta Agrizzi, que demorou para descobrir um dos principais segredos da profissão. Ele conta o segredo, mas logo se arrepende e pede encarecidamente que o repórter do Estado não o divulgue – só dá pra dizer que é algo parecido com a maturação do vinho.
      A escolha de bons chifres para a fabricação do berrante leva os fabricantes a rincões distantes. Tornaram-se raras as criações de boi com chifre no Estado de São Paulo – são mais comuns em Goiás e Mato Grosso. A escassez de matéria-prima e o desaparecimento das grandes boiadas decretam escassez de profissionais do ramo. Mas o berrante persistiu. “O berrante foi criado aqui no Brasil”, diz Malaquias. “Foram os primeiros imigrantes italianos que começaram a fazer, provavelmente adaptando a antiga buzina de chamar cães de caça que era usada na Grécia e na Turquia”, aventa Agrizzi.

      Particularidades – Instrumento mítico, símbolo do heroísmo e solidão do boiadeiro, o berrante tem suas particularidades. Por exemplo: não pode ser muito grande, porque o pantaneiro não gosta de pôr muita tralha na sela. Berrantes com tons mais agudos soam mais longe. Os mais graves soam mais perto. Com ele, o boiadeiro avisava sobre a proximidade de um mata-burros, o estouro da boiada, chamava para o almoço ou soltava a boiada no estradão. “Hoje, serve mais como enfeite”, diz, com certa melancolia, o berranteiro Agrizzi. Os berrantes de Jairo Agrizzi custam entre R$ 120,00 e R$ 170,00. Os berrantes de Marciel e Efraim Malaquias custam entre R$ 27,00 e R$ 30,00.